Eduardo Ritter

A lente de Dylan: quando o repórter tem a alma de artista

Eduardo Ritter
Professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel
rittergaucho@gmail.com

No livro A arte de escrever um jornal diário, o jornalista Ricardo Noblat menciona que o bom repórter tem uma espécie de "faro" para boas histórias. Eu, contudo, acrescentaria que esse faro não é algo natural, que nasce com o sujeito, mas sim pode ser desenvolvido ao longo dos anos e vai se afinando com a experiência. Claro que sempre aparecem umas criaturas precoces que demonstram isso muito mais cedo do que a média. Assim como no futebol, em cada atividade e profissão, também há os "foras de série". São sujeitos que parecem partir de onde os outros lutam para chegar.

Na música brasileira, há vários foras de série que entraram para a história pela literariedade das letras: Renato Russo, Elis Regina, Cazuza, Raul Seixas, Chico Buarque, Roberto Carlos, Tom Jobim e muitos outros transformaram música em primores da literatura brasileira. Já no contexto internacional, eu sempre gostei das letras de Bob Dylan. Cerca de dez anos atrás, li a biografia do músico escrita pelo jornalista Robert Shelton, publicada com o título No direction home. Nela, viajamos para os Estados Unidos dos anos 1960, especialmente para Nova York. Nos últimos dias, porém, iniciei uma viagem diferente com o próprio Dylan através do primeiro volume das suas crônicas, publicado em 2016 _ livro emprestado pelo brother Fábio Cruz, que me lê direto da Espanha.

Lendo as crônicas de Dylan concluo que, ao mesmo tempo em que ele sempre foi um fora de série da música, ele também tinha desde o início o faro de repórter, mencionado por Noblat. No entanto, para a sorte do mundo, Dylan não virou jornalista, mas sim, levou tal faro para o folk. Ele se diferenciou dos demais do seu tempo justamente por levar para as suas canções histórias que via e que queria contar. "Havia um milhão de histórias, coisas do cotidiano de Nova York, caso você quisesse focar-se nelas. Estavam sempre bem na sua frente, misturadas, mas você tinha que separá-las para dar-lhes um sentido" (p.40). Eis uma frase de Dylan sobre a sua música que poderia estar em um manual sobre reportagem para iniciantes.

Dylan tinha faro para boas histórias. Graças a isso, ao invés de escrever um livro reportagem, ele escreveu uma letra icônica sobre Hurricane, baseado em uma história verídica do boxeador Rubin "Hurricane" Carter, injustamente condenado por assassinato por ser negro. Assim como ele não precisou entrevistar milhares de fontes para captar uma época. Ao invés disso, ele colocou o mundo que girava ao seu redor em uma música chamada "Tambourine Man", que logo se tornou um hino da contracultura dos anos 60.

Sobre o início de carreira, Dylan escreveu: "De qualquer modo, eu não tinha nenhuma canção para o rádio comercial no meu repertório. Canções sobre depravados contrabandistas de álcool, mães que afogavam os próprios filhos, Cadillacs que faziam apenas cinco quilômetros por litro, enchentes, protestos sindicalistas, trevas e cadáveres no fundo de reios não eram para os amantes do rádio" (p.43). Sorte que ninguém levou ele para o radiojornalismo, assim, ele revolucionou a música mundial com as suas lentes de repórter escritas com alma de artista.

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